Brasil expõe seus problemas de identidade e qualidade na Copa do Mundo
A eliminação do Brasil nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, seu pior desempenho em Copas desde 1990, expôs problemas estruturais que explicam o declínio gradual da seleção com mais títulos mundiais.
Abaixo, três razões para a atual má fase da equipe comandada pelo técnico Carlo Ancelotti, que perdeu por 2 a 1 para a Noruega de Erling Haaland no domingo, em East Rutherford, Nova Jersey.
1. Perda de identidade
Não houve jogo bonito no MetLife Stadium, nos arredores de Nova York. O estilo ofensivo e estético que tornou o Brasil mundialmente famoso há muito tempo está ausente do repertório da 'seleção canarinho'.
Na partida das oitavas de final, a seleção que talvez melhor personifique a paixão entre homem e bola cedeu o domínio e o controle aos escandinavos.
Os brasileiros tiveram apenas 32,1% da posse de bola e jogaram principalmente no contra-ataque, uma estratégia que, no entanto, se mostrou eficaz o suficiente para transformar o goleiro nórdico, Orjan Nyland, na estrela da partida.
Antes do jogo, Ancelotti reiterou seu desejo por uma equipe com "múltiplas identidades", em vez de apenas a abordagem ofensiva esperada do Brasil, para lidar melhor com as diversas estratégias empregadas pelos adversários.
Mas o estilo de jogo contra a seleção nórdica, que triunfou graças a dois gols de Haaland, gerou protestos.
"O Brasil jogou atrás, jogou defensivamente contra a Noruega. Essa é a nossa capacidade hoje, infelizmente", disse à AFP o ex-jogador da seleção brasileira e comentarista Walter Casagrande.
2. Qualidade dos jogadores
Tendo disputado a Copa do Mundo de 1986, no México, Casagrande há muito questiona a qualidade da atual geração da Seleção.
O talento da geração liderada por Vinícius Júnior e companhia tem sido alvo de críticas, inclusive do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A venda precoce de jovens jogadores e um foco no desenvolvimento voltado para atrair o interesse do mercado europeu são vistos como fatores-chave para a escassez de astros com verdadeiro 'DNA brasileiro'.
O próprio 'Carletto', o primeiro técnico estrangeiro a comandar a 'Amarelinha' desde 1965, reconheceu a falta de laterais de alto nível e meio-campistas criativos.
Neymar foi talvez o único superastro a surgir no país desde que Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho conquistaram o pentacampeonato em 2002.
Kaká foi o último brasileiro a conquistar a Bola de Ouro, em 2007, há quase duas décadas. Além disso, a Seleção não vence uma equipe europeia na fase de mata-mata da Copa do Mundo desde a conquista da quinta estrela na Coreia do Sul e Japão.
Neymar, que anunciou sua aposentadoria da Seleção após a eliminação diante da Noruega, nunca conseguiu levar a equipe a uma final de Copa do Mundo, e lesões marcaram seus últimos anos.
"O principal erro de Carlo Ancelotti foi convocar Neymar [que chegou lesionado e jogou apenas dois períodos no segundo tempo]. Danilo, Casemiro, Alex Sandro... esquece. Quando é preciso reconstruir, tem que apostar na juventude", disse Casagrande.
3. Falta de um artilheiro
O Brasil carece de um camisa 9 temido desde os tempos de Ronaldo e Adriano. Nesse intervalo, jogadores como Luís Fabiano, Fred, Gabriel Jesus, Richarlison e, mais recentemente, Matheus Cunha foram testados, mas sem sucesso.
O atacante do Manchester United marcou três gols durante a Copa de 2026 na América do Norte, um a menos que Vini Jr., o artilheiro da Seleção no Mundial.
A responsabilidade de marcar gols recaiu sobre Cunha, que geralmente se sente mais confortável atuando como falso 9 ou meia-atacante, e sobre Vini, ponta de origem capaz de jogar mais centralizado no ataque.
Os centroavantes de ofício não marcaram: Igor Thiago, segundo maior artilheiro da temporada anterior da Premier League, com 22 gols, teve poucas oportunidades, enquanto Endrick, o prodígio de 19 anos, entrou em campo como opção para mudar o jogo em quatro partidas.
"Os caras tinham o Haaland, um matador. A gente não tem. Ele teve as chances dele e marcou dois gols", escreveu o ex-atacante Romário no Instagram.
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) está confiante de que Ancelotti, vencedor de todos os principais títulos por clubes, pode conduzir a Seleção na direção certa, visando à Copa do Mundo de 2030.
Para esse torneio, a entidade espera contar com um elenco mais robusto, sem desfalques importantes como os que foram sentidos nos Estados Unidos, como os de Rodrygo e Estêvão.
"O que nos gera alguma expectativa e esperança para o proximo ciclo é a certeza de uma continuidade que nos possibilita fazer ajustes para chegar mais fortes na Copa", disse Rodrigo Caetano, diretor de seleções da CBF.
A.Weber--MP