'Pseudojornalismo': sites partidários de notícias ganham espaço nas eleições legislativas dos EUA
O The North Carolinian se apresenta como um site de notícias independente, mas está entre as centenas de portais partidários que, segundo analistas, se fazem passar por veículos locais em estados decisivos para as eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos.
Esses sites, chamados de "pink slime", muitos deles discretamente apoiados por grupos partidários dos dois lados do espectro político, parecem ampliar a circulação de narrativas polarizadoras ou falsas antes das eleições de 3 de novembro.
Seus patrocinadores gastam centenas de milhares de dólares para promover artigos nas redes sociais, enquanto os veículos tradicionais enfrentam dificuldades financeiras, demissões e baixos níveis de confiança pública.
O Senate Leadership Fund (SLF), comitê de ação política que se diz "dedicado exclusivamente a proteger e ampliar a maioria republicana no Senado", lançou o The North Carolinian em julho, segundo a organização americana NewsGuard, que avalia a confiabilidade de sites e conteúdos online.
O The North Carolinian reconhece ter sido "financiado pelo SLF", mas afirma "não ter sido autorizado por nenhum candidato nem equipe de campanha".
O site, porém, concentra seu conteúdo em questionar a campanha de Roy Cooper, candidato democrata ao Senado pela Carolina do Norte, e promover seu adversário republicano, Michael Whatley.
O portal publica manchetes como "O histórico catastrófico de Roy Cooper em matéria de criminalidade" e "Whatley destaca a perigosa permissividade do democrata Cooper em relação à criminalidade".
Segundo a NewsGuard, o SLF gastou entre 34.700 dólares (R$ 180 mil) e 46.715 dólares (R$ 243 mil) para promover artigos do site nas plataformas da Meta até o fim de agosto. Com isso, obteve pelo menos 3,6 milhões de visualizações. As conversões usam a última cotação de fechamento disponível do Banco Central, de 25 de setembro. ptax.bcb.gov.br
O SLF não respondeu ao pedido de comentário da AFP.
- 800 mil dólares -
Os veículos "pink slime", alguns suspeitos de usar ferramentas de inteligência artificial para produzir seus artigos, se multiplicaram nos últimos anos. Em número, eles já superam os sites de jornais americanos.
A NewsGuard identificou 1.179 veículos "pink slime", dos quais 21 foram lançados neste ano. Em comparação, apenas 937 jornais diários continuam em atividade, segundo o projeto da Universidade Northwestern sobre iniciativas de informação local.
"Esses sites 'pink slime' podem confundir os leitores, que talvez desconheçam seus interesses e os tomem por veículos locais independentes, o que pode corroer a confiança no jornalismo entre pessoas de diferentes tendências políticas", afirmou Sam Howard, da NewsGuard.
Segundo a organização, dois grupos "pink slime", o One Nation, ligado à direita, e o American Independent, ligado à esquerda, gastaram juntos pelo menos 801.500 dólares (R$ 4,17 milhões) em publicidade nos primeiros oito meses do ano para promover conteúdo no Facebook e no Instagram.
O aumento das audiências desses sites também pode ter consequências para os agentes conversacionais de IA, cada vez mais usados em pesquisas online, segundo alguns pesquisadores.
O One Nation, afiliado ao SLF, lançou seis sites que se apresentam como portais independentes em estados decisivos para a disputa pelo Senado: Geórgia, Alasca, Maine, Iowa, Ohio e New Hampshire, segundo o boletim independente Popular Information.
O One Nation "produz propaganda que se faz passar por jornalismo", afirmou o boletim.
O American Independent e o One Nation não responderam às perguntas da AFP.
- Fazer crer -
O apelido "pink slime" (que pode ser livremente traduzido como "lodo rosa") faz referência a uma pasta de carne rosa fluorescente usada como aditivo por fabricantes de alimentos.
Na era das ferramentas de IA baratas e amplamente disponíveis, produzir e difundir esse conteúdo, descrito como "pseudojornalismo" pela Columbia Journalism Review, nunca foi tão fácil.
No ano passado, um estudo apoiado pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Yale alertou para a influência crescente desses sites e apontou que muitas pessoas costumam preferi-los aos veículos tradicionais.
"Esses sites parecem receber dinheiro de campanhas ou operadores políticos e publicam artigos tendenciosos ou com alguma orientação, sob a aparência de veículos legítimos de notícias", afirmou o estudo.
O crescimento dos veículos "pink slime" coincide com o rápido declínio dos jornais locais, muitos dos quais fecharam ou reduziram significativamente suas equipes por dificuldades econômicas.
No ano passado, a Universidade Northwestern identificou mais de 212 condados, entre cerca de 3 mil nos Estados Unidos, como "desertos de informação" por não terem fontes locais de notícias, como jornais ou rádios públicas.
F.Koch--MP