'Como uma guerra': Paris amanhece atônita diante da violência
Uma parisiense fica paralisada diante do amontoado de bicicletas carbonizadas que se acumulam neste domingo (18) bem no centro da capital, que apresenta um cenário desolador após os violentos distúrbios ocorridos na véspera, à margem das manifestações.
"É lamentável, aterrorizante; grupos de jovens vieram aqui ontem, saqueando, quebrando tudo, com total impunidade", lamenta Cécile Rogue, de 57 anos. São 8h00 da manhã e o ar ainda cheira a queimado.
Do outro lado do boulevard, um grupo de homens levanta um enorme vidro quebrado. "Era a vitrine da Roche Bobois", uma loja de móveis, diz um deles à AFP.
Mais adiante, é possível ver uma poltrona verde aparecendo por um buraco aberto em outra vitrine.
- "A França não é mais a mesma" -
À frente, um ponto de ônibus também está completamente destruído.
Vestindo shorts, camiseta laranja e com o cabelo preso em um rabo de cavalo, Anita Gras decidiu sair para correr logo cedo, embora, para isso, tivesse que desviar do lixo e escombros. Ela não consegue evitar soltar alguns palavrões ao se referir aos vândalos.
"Nunca tínhamos visto uma violência assim", comenta, afirmando que alguns estudantes do ensino médio participaram dos distúrbios e dos saques.
Em Paris, assim como em várias cidades da França, a violência e os saques ofuscaram a manifestação de sábado contra o "custo de vida elevado", embora, em alguns bairros, tenha ocorrido sem incidentes.
"Entraram na loja da Asics; um par de tênis custa 200 euros (...) Ficaram no bairro até a 1h00 da manhã. Tivemos medo de que jogassem algo na gente", conta Anita Gras.
No sábado, em meio ao caos, ela teve que ir buscar seu filho, que trabalha em uma loja do bairro que foi gravemente vandalizada.
"É como se tivéssemos passado por uma guerra", observa, entristecido, Mehmet Ozden, um alfaiate aposentado de 78 anos, de origem turca, que vive no centro da capital desde que chegou à França nos anos 1970, "quando [Charles] de Gaulle ainda estava vivo".
Ele saiu para passear com o cachorro que, segundo conta, "ficou com muito medo" na noite de sábado. "Tivemos que voltar para casa."
"Seremos nós que pagaremos por tudo isso. É inaceitável. A França não é mais a mesma", diz, entre suspiros.
- Temor pelo turismo -
Diante de tais cenas de caos, Cécile Rogue, que se apresenta como "organizadora de viagens", prevê consequências negativas para sua atividade.
"Não é uma boa imagem para o turismo. O papa esteve aqui há quinze dias e o ambiente era bem diferente", avalia.
Outra mulher, muito maquiada e vestindo um casaco vermelho, entra rapidamente em uma entrada de metrô.
"Foi horrível, eu estava tão assustada", diz a turista, em inglês, preferindo não revelar seu nome.
Na estação de metrô da praça da République, uma das mais movimentadas da cidade, ainda há cheiro de gás lacrimogêneo. Nas ruas próximas a essa praça, onde também foram registrados incidentes violentos, os trabalhos de limpeza avançam.
Dois agentes de segurança e um cão estão posicionados diante da vitrine destruída de uma loja de eletrodomésticos.
Por todos os lados há detritos e cápsulas de bombas de gás lacrimogêneo espalhados pelas calçadas.
Bicicletas carbonizadas foram amontoadas para não atrapalhar a circulação.
Em uma loja de cosméticos em uma avenida próxima, veem-se os vestígios do saque ocorrido na véspera: uma vitrine quebrada e embalagens estraçalhadas espalhadas pelo chão, junto com sacolas e vários enfeites.
O alarme continua tocando, mas ninguém apareceu.
Perto da praça da République, não resta nem sinal dos projéteis lançados pelos policiais para dispersar a multidão, mas ainda há montes de lixo. E carros carbonizados, testemunhas dos distúrbios de sábado.
A.Kenny--MP